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Como contratar 10 mulheres, transformar sua empresa e impactar a sociedade

Miguel Di Ciurcio Filho
Miguel Di Ciurcio Filho Gestor

O programa Instruct The Women foi a iniciativa mais ousada que já criei como empreendedor. Um programa de mentoria para mulheres em início de carreira em desenvolvimento que contou com 1500 inscrições e 350 participantes.

Um problema sem solução?

As disparidades no setor de TI em relação à população são notórias e de longa data. O setor de TI não está sozinho nessa condição e finalmente muitas pessoas estão abrindo os olhos para isso.

E por que se preocupar com essas disparidades? Por que fazer algo sobre isso? Honestamente, não posso dizer o que você deveria fazer, mas te conto que decidi fazer algo a respeito para a minha empresa.

Ao longo do primeiro semestre de 2021 contratamos 14 pessoas. Dessas, apenas uma mulher.

Essa situação sempre me deixou constantemente inconformado. Por muito tempo essa questão me corroeu, por que estava claro que isso não era bom, mas eu não sabia como resolver.

Nosso processo seletivo para uma vaga de backend tinha algumas características crônicas em relação à participação de mulheres:

  • Poucas mulheres se candidataram
  • Das que se candidataram, no meio do processo havia ampla desistência, pois eram contratadas por outras empresas;
  • Mesmo criando separadamente uma vaga afirmativa para mulheres, os resultados eram os mesmos;

Era mais que urgente que algo realmente significativo fosse feito por mim para transformar a Instruct em uma empresa mais diversa e equilibrada.

Descobrindo as dores

Uma pergunta frequente que eu ouvia de alunos quando ministrava treinamentos e de clientes quando prestava consultoria era: quais são as melhores práticas para seguir?

Sempre buscamos referências baseadas nas experiências de outras pessoas. Fazemos isso principalmente para termos segurança e conforto em nossas decisões. Porém, mesmo seguindo as melhores práticas, muitas vezes as coisas não acontecem como a gente gostaria.

Seguir as "melhores práticas" é muitas vezes um subterfúgio para não assumirmos as responsabilidades de nossas escolhas ou simplesmente por incapacidade de conseguirmos nós mesmos tomarmos as rédeas da solução de um problema.

Importante não confundir "seguir as melhores práticas" com trocar experiências, dores e histórias. Misturamos constantemente as nossas experiências com as dos outros, para no final resolvermos o problema do nosso jeito, e não simplesmente copiando.

Muitas vezes é incrivelmente difícil ver como a resposta é óbvia para essa busca do "como fazer": levar o problema a quem tem a melhor e inquestionável perspectiva sobre essa discrepância. Oras, quem seria? Óbvio, as mulheres!

Chamei para uma conversa as mulheres da empresa, para de peito aberto dizer: eu não sei o que fazer, mas temos que fazer algo.

Uma das ações que estávamos tentando, e sem sucesso, para contratar mais mulheres, foi uma vaga dedicada. O principal erro apontado por elas foi que o discurso da vaga ainda era o mesmo, não tinha nada de diferencial a não ser pelo nome que era "vaga afirmativa".

Outro ponto relevante que elas trouxeram foi que a mulher tem uma abordagem diferenciada quando se trata de possuir ou não os requisitos para uma vaga. A mulher geralmente vai se candidatar apenas se ela julgar que possui plenamente todos os requisitos.

A partir daí, um horizonte de possibilidades foi se abrindo. Fomos avaliando e entendendo como virar esse jogo. Elas trouxeram diversos pontos que eu não estava me atentando e honestamente não tinha nem ideia.

Conversamos também sobre outras iniciativas de contratação de iniciantes na empresa, principalmente as lições aprendidas com as que não deram certo. Aqui listo as principais dores que tivemos no passado para esse tipo de iniciativa:

  • Processo de seleção sem critérios claros e objetivos;
  • Falta de engajamento e comunicação;
  • Contratação de treinamentos inadequados para nível de experiência dos participantes;
  • Os participantes tinham vários problemas com seus computadores pessoais;
  • Falta de maturidade para o trabalho remoto;

Nasce uma estrela

Um dos hábitos que temos na Instruct é criar um Google Doc, rascunhar ideias e todos fazem comentários nele. Nesse documento definimos os pilares da nossa iniciativa batizada de Instruct The Women, como:

  • Programa trainee para contratação e formação de mulheres em desenvolvimento de software;
  • Uma mentoria e capacitação antes do processo seletivo;
  • As selecionadas serão contratadas no regime CLT;
  • A participação no programa poderá ser realizada de qualquer lugar do Brasil;
  • Mulheres procurando primeiro emprego ou iniciando uma mudança de carreira para a área de TI;

Após a definição dos fundamentos e outros detalhes do programa, a maior dúvida que permaneceu era se tentávamos fazer tudo nós mesmos ou se buscaríamos ajuda. Faltava essa peça.

Após várias conversas, fechamos a parceria com a Se Candidate, Mulher! O conhecimento delas em processos de mentoria para mulheres acrescentou muito e com elas fechamos o último elo da corrente. Elas trouxeram uma excelente estrutura e técnicas para as atividades de mentoria e capacitação que antecederam o processo seletivo.

A participação das mulheres da empresa nas atividades de mentoria seria fundamental para também dar ainda mais a cara da Instruct ao programa.

Plano e objetivo traçados: lançar um programa de mentoria para mulheres em desenvolvimento de software, abrir uma vaga para trainee focada nas participantes e contratar.

Durante as semanas que antecederam a abertura das inscrições para o Instruct The Women, nossos dias foram agitados.

Praticamente a Instruct toda esteve envolvida no programa.

Revisamos as artes e textos da divulgação e acrescentamos várias contribuições nossas. A principal que mais gostei: em uma das artes iniciais, havia uma foto de uma senhora com uma frase motivacional. Perguntei, mas quem é essa senhora? É a Eleanor Roosevelt. Mas que eu saiba ela não tem nenhuma relação com computação. Temos que colocar a Margaret Hamilton!

E uma das principais afirmações dela em relação ao programa espacial Apollo:

Margaret Hamilton: Não havia escolha senão ser pioneiros

Guardadas as devidas proporções entre o programa espacial Apollo e nossa iniciativa, mas comparando com o tamanho do nosso desafio e o que é costumeiramente feito no mercado brasileiro, não tínhamos escolha senão ser pioneiros também.

Além dos trabalhos de acompanhamento do lançamento da campanha de divulgação, começamos já a organizar a casa para receber as futuras trainees. O time começou a criar e definir tarefas adequadas à experiência das trainees e também a aprimorar nosso processo de onboarding.

O processo seletivo da Instruct está explicado em nosso site. Porém, para esta vaga de trainee, tivemos que adaptar e retirar o que não fazia sentido, principalmente reduzindo etapas.

Além disso, tomando como base os aprendizados retirados da vaga afirmativa realizada anteriormente (sem sucesso), adaptamos todo o discurso da vaga que seria divulgada em conjunto com a mentoria. É importante deixarmos claro o nosso discurso para que a ideia seja melhor acolhida.

Um exercício técnico em Python foi preparado para a mentoria, visando buscar um equilíbrio entre ser desafiador o suficiente, realista dentro do que se faz no dia a dia de um profissional e didático para que realmente possa servir como aprendizado.

Hora do lançamento

No primeiro dia mais de 200 mulheres se inscreveram! Ao longo do período de inscrições de uma semana, chegamos a 1500!

Recebemos inúmeros feedbacks muito positivos em relação a nossa iniciativa e o engajamento nas redes sociais foi muito acolhedor.

Um dos principais valores da Instruct é máxima transparência sempre que possível e aplicamos isso na comunicação do programa. Os requisitos para participação eram realistas, pragmáticos e pensados cuidadosamente para chegarmos nas pessoas certas.

Informamos também a descrição completa da vaga que seria aberta após a mentoria, incluindo todos os benefícios, regime de contratação e até mesmo o salário. Essa clareza está na nossa cultura é um grande diferencial em relação às práticas de mercado, onde geralmente informações de recrutamento e seleção são fornecidas de maneira exageradamente omissa às pessoas.

Essa primeira semana de inscrições fez surgir e gerar um enorme engajamento com a hashtag #InstructTheWomen no Linkedin e também satisfação das pessoas por finalmente encontrar uma empresa se propondo a fazer o que estávamos fazendo.

A página criada em nosso site para o programa foi a mais acessada naquela semana.

Além de tudo isso, a Se Candidate, Mulher! fez comigo uma live para falarmos sobre o programa e apresentar um pouco mais a empresa:

Criou-se uma enorme expectativa, tanto em nós quanto em quem estava se inscrevendo.

Pausa para a reflexão

E por que fazer isso? Por que mobilizar a empresa para isso? Qual a motivação?

Embarcar em uma iniciativa como o Instruct The Women não é fácil. Ao longo das conversas de definição e planejamento, sempre havia um constante conjunto de incertezas e dúvidas, com diversos fatores fora do nosso alcance.

São tantas incertezas e riscos que certamente a maioria dos gestores nem sequer ousaria tentar. É importante ter clareza sobre qual é o resultado esperado.

No caso de iniciativas afirmativas, o mais importante é que a motivação seja legítima, ou seja, você tem que realmente querer atacar o problema. Sem isso, em algum momento vai soar artificial, forçado ou até mesmo, falso.

Não adianta tentar fazer uma iniciativa afirmativa se você não estiver disposto a repensar seus processos internos, principalmente de recrutamento e seleção. Infelizmente, ainda é absurdamente comum requisitos descabidos para contratação de pessoas. Essas exigências têm uma razão de existir: prover um respaldo para justificar processos de seleção completamente desestruturados.

Particularmente no caso de contratação de profissionais em início de carreira, é deprimente como as empresas geralmente ainda não têm a mínima estrutura e capacidade, ou até mesmo vontade, de ensinar e disseminar conhecimento. Isso é um requisito para uma iniciativa como o Instruct The Women minimamente dar certo, visto que as trainees estarão na empresa.

Dada a importância de se aumentar a participação de mulheres no mercado de trabalho, criamos em 2018 a iniciativa Girls On Puppet, visando alavancar a qualificação técnica e a ascensão das profissionais femininas no setor de automação de infraestrutura e DevOps.

O Girls On Puppet resultou da união entre Instruct e a Puppet Inc. para oferecer 16 bolsas de estudos gratuitas do treinamento Puppet Fundamentals para mulheres da TI no Brasil.

O Instruct The Women carrega lições e cicatrizes de erros e aprendizados.

Que comece a mentoria

Foram selecionadas 350 mulheres para a mentoria.

Foi um sucesso surpreendente e muito caloroso!

A cada mentoria e participação das mulheres da Instruct, mais e mais notificações apareciam no meu LinkedIn, com inúmeros depoimentos e feedbacks emocionantes sobre o programa.

A Se Candidate, Mulher! trouxe as mentoras certas e junto com a gente causaram um impacto significativo na vida dessas mulheres. A participação de pessoas de fora da Instruct sempre foi uma grande preocupação minha, mas a Jhenyffer Coutinho e seu time foram, como elas gostam muito de dizer, maravilhosas.

Foram duas semanas com várias combinações de tensão e alegria no desenrolar das mentorias. Várias mulheres se organizaram em grupos de estudo para fazer o exercício. Nosso time, inclusive, esteve presente sempre que possível nesses grupos para ajudar ao máximo.

Foi uma jornada que gerou experiências que levaremos para a vida toda e enche o coração de alegria. Finalmente pudemos relaxar um pouco e ver o resultado de todo o carinho e atenção aos mínimos detalhes que dedicamos na criação do Instruct The Women.

Valeu o esforço?

Após a conclusão da mentoria foram mais alguns dias de tensão, pois abrimos as inscrições para a vaga de trainee. Agora a escolha de se candidatar para vir trabalhar na Instruct estava nas mãos delas.

Para nosso alívio e alegria, foram mais de 100 inscrições para a vaga, que resultou no processo seletivo mais eficiente que a Instruct já fez. Em pouco mais de uma semana, foram dezenas de entrevistas e decisões de contratações no mesmo dia ou no máximo no dia seguinte.

Foram 10 contratações e todas já estão trabalhando conosco.

Valeu e muito o esforço. Cada centavo e gota de suor que colocamos no Instruct The Women valeram demais para nós e acreditamos que também para grande parte das participantes.

Saímos de 18% para 42% de mulheres na empresa. Essa mudança é tão grande e impactante para todos aqui, que não tenho dúvidas que a Instruct agora é praticamente outra empresa. Maior, melhor e mais plural e temos um futuro ainda mais promissor do que antes.

Nossa grande parceira e fundadora da Se Candidade, Mulher! Jhenyffer Coutinho dividiu conosco a emoção do resultado até então do Instruct The Women:

Parabéns pelo trabalho de vocês, quem dera se todas as empresas fossem igual a Instruct! Vocês são exemplo viu? E olha que estamos trabalhando com várias, com certeza vocês estão entre as 2 melhores que já trabalhamos.

Se a sua empresa não está preparada para prover as adaptações necessárias e desenvolver um ambiente que possa dar segurança na entrada de mulheres iniciantes, tente começar a desenvolver o que está ao seu alcance para mudar o cenário.

Crie um curso e disponibilize gratuitamente, ofereça mentorias, bolsas de estudos, ou tente seguir nossos passos e simplesmente contrate mais mulheres para sua empresa! Você precisará mudar seus processos, talvez até mesmo eliminá-los!

Antes mesmo de conseguirmos chegar a este resultado do programa Instruct The Women, fizemos várias tentativas e, a partir dos erros e aprendizados, fomos estruturando algo maior.

Suas iniciativas não estão dando resultados? A minha dica é: não desista e continue!

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